domingo de ramos

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Subia o cheiro de incenso por toda a rua, chegando mesmo aos que estavam por último na procissão. Era pequeno ainda, não devia ter quatro anos, meus passos trôpegos tentando acompanhar os de minha mãe, que olhava por cima dos ombros das outras pessoas, balançando com elas um ramo de palmeira. Tudo o que via era aquele emaranhado de pernas, seguidos de buracos de narizes e braços que balançavam com vigor ramagens de todo tipo.
Não entendia o que estava acontecendo, mas estava lá com minha mãe; havia um bocado de coisas a respeito daquele lugar, a igreja, que não conhecia e mesmo assim vivia, como quando minha mãe ajoelhava e começava a cochichar uma oração qualquer, depois de voltar para o banco de uma fila que ia lá na frente do altar, Deus sabe para fazer o quê. Só ouvia o cochicho dela – psi-psi-psi-psi – e a imitava, ajoelhando-me ao seu lado, as mãozinhas no rosto e cochichando melodicamente o mesmo psi-psi-psi-psi…

            Deus devia entender.

            Sabia que era Deus aquele a quem minha mãe ensinou de chamar de “Papai do Céu”. Demorou um tempo até eu entender que Ele era diferente do “Santinho” ou da “Santinha” que a gente via nas laterais da capela do nosso bairro. E eu, que não tinha pai, achei aquela ideia muito interessante: alguém que conseguia decifrar até os nossos cochichos, quando eles não faziam sentido nem pra gente! Era bastante que a gente se ajoelhasse e fizesse aquilo, e Ele entendia.

            Mas não era só de joelhos e cochichos que foram feitos meus primeiros contatos com Ele; havia também aquelas caminhadas de uma igreja para outra, ou de volta para a mesma igreja, que chamavam procissão. Às vezes eu ia ao colo de minha mãe, mas agora ela achava que eu era suficiente para andar no meio daquela multidão de gente, esgueirando-me no meio daquelas pernas de homens e mulheres balançando seus ramos.

            De certa maneira, eu até insisti para que ela me pegasse; durante o caminho, puxei uma ou duas vezes as calças dela, sem nenhum sucesso: ela continuava olhando para frente, balbuciando a música que vinha do alto-falante do carro de som que acompanhava a procissão. Parecia não saber muito bem a letra da música que cantavam, apesar de conhecer a melodia, e em meio um “Filho de Davi” e um “Deus de Israel”, havia muitos nã, nã, nã, nã… ao ritmo do canto.

            Mais uma vez os cochichos…

            Em dado momento, soltei a mão de minha mãe; não me perguntem o motivo, mas simplesmente soltei. Se em algum momento isso fez sentido na minha cabeça de criança, eu não sei, e não poderia dizê-lo agora, porque provavelmente esqueci. Mas soltei, e em questão de segundos, pares de pernas passaram à minha frente e minha mãe seguiu, não sei se já cônscia do meu sumiço ou não.

            Estava andando de costas, um pouco apavorado pelo fato de não ver minha mãe e aqueles homens e mulheres não perceberem aquele pingo de gente no meio deles; continuavam cantando e balançando seus ramos.

            Foi quando eu bati em um deles: era um sujeito grandalhão, gordo mesmo, de cabelos brancos, vestindo uma capa vermelha em cima de uma túnica branca. Tendo batido nele com meu corpinho de quase quatro anos, não havia outra escapatória para ele que não me perceber: ele então baixou os olhos, deu um sorriso e me agarrou no colo, o que de certa forma chamou a atenção das pessoas em volta.

            Fiquei atônito; eu não fazia ideia de quem era aquele homem!

            E então, de olhos bem arregalados, eu o ouvi perguntar:

            – Onde está sua mãe?

            A voz era cavernosa, potente, mas cheia de carinho, bateu em meus ouvidos mais que como uma pergunta, mas como um reconhecimento que para mim, naquela época, não parecia nada óbvio: ele conhecia minha mãe!

            Quem, no meio daquela multidão, poderia conhecer minha mãe?

            Seria ele o Papai do Céu?

            Sem pensar duas vezes, eu encostei minha cabeça no rosto dele, minha boca perto do seu ouvido, e comecei a cochichar como costumava fazer na igreja, do jeito que aprendi com minha mãe, como se estivesse ajoelhado:

            – Psi-psi-psi-psi-psi…

            Acredito que nunca fui tão fervoroso em minha vida de oração!

            Um momento depois, antes que eu pudesse terminar meus murmúrios aos pés do ouvido do Papai do Céu, minha mãe chegou com um sorriso encabulado e, colocando o ramo de palmeira debaixo do braço, pegou-me do colo dele, pedindo desculpas, ao que ele sorriu gentil e seguiu o caminho, cantando com o povo e balançando seu próprio ramo de palmeira, grande e trançado.

            Minha mãe então me carregou no colo, dizendo que não era pra que eu saísse de perto dela; a procissão seguiu e continuamos na igreja.

            Conforme fui crescendo, e fui capaz de ver acima dos ombros das pessoas, percebi que aquele homem, que com o tempo foi se tornando outro e outro, não era o Papai do Céu, mas o padre.

Um deles, no entanto, não era igual aos outros padres: um deles, em especial, ouviu de minha boca uma prece que era só minha e de Deus naquele Domingo de Ramos, e soube guardá-la com carinho, como Deus guarda todas as orações…

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inusitado

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A mulher sentada à minha frente no café é gorda e ocupa a cadeira onde está como se fosse uma monarca em seu trono, como uma escultura da deusa de Çelar Hüyük que certa feita vi em um livro de História da religião. Seu tamanho abastado faz com que eu julgue a mesa como seu reino próprio e sua aparência bovina transparece o ápice de um tédio que eu simplesmente não consigo medir, mas somente imaginar. Apesar das formas bem definidas, o corpanzil coberto por um vestido roxo e encimado por um casquete verde, parece-me na verdade um saco de matéria pasmacenta que a qualquer momento vai escorregar para o chão.

Sinto-me mal por escrever essas coisas, principalmente agora que vejo o quanto observei bem a mulher que está à minha frente no café. E, apesar de julgar que ela goste muito de comer, ela não tem nada à sua frente, enquanto eu, cheio de arrogância para defini-la deste ou daquele jeito, estou com uma xícara de café e um croissant de queijo do tamanho da palma da minha mão logo à minha frente.

Mas as coisas são o que são e uma verdade não merece punição, como dizia minha avó.

Era tedioso olhar para a mulher, tamanho era seu tédio; a expressão de seu rosto caía em direção ao chão, movida unicamente pela gravidade e pela espera de algo que eu não fazia ideia do que fosse. A mulher tamborilava com os dedos das duas mãos no tampo de vidro da mesa com armação de ferro e, no meio daquilo, foi surpreendida uma vez pela pergunta de um garçom, tendo respondido bem baixinho à sua pergunta, provavelmente para pedir algo para beber.

Estava esperando alguém, sem dúvida. Mas por que se vestia daquele jeito? Quem, em plena terça-feira, vai a um café vestida de roxo, com um casquete berrante na cabeça? O que pretende uma pessoa dessas? Não deve regular bem da cabeça também, a pobrezinha.

Volto para o meu livro, tentando me distrair dela, que a todo momento me chama a atenção, não porque faça qualquer coisa, mas porque simplesmente já percebi a sua presença e ela ficou gravada na minha retina.

Minha leitura de Mircea Eliade perdeu um pouco de interesse quando o sino de latão em cima da porta do café balançou, anunciando a chegada de um cliente, um homem vestindo um terno claro meio em desalinho e uma gravata borboleta preta, o rosto assustado, os olhos arregalados olhando para os dois lados antes de prosseguir.

O rapaz então se aproximou da mesa da mulher gorda, que olhou para ele com o mesmo espanto. Pela primeira vez, sua feição e sua postura tinham mudado: ela agora se recostava na cadeira, virando-se um pouco de lado, sua boca dizendo um “Você!” surpreso.

O moço, que devia ter no máximo uns trinta anos, ajoelhou-se do lado da deusa anatoliana e, tomando suas mãos gordas como dois grandes pãos italianos, beijou-as repetidas vezes antes de olhar para ela, para seus olhinhos pretos perdidos nas enormes bochechas, e dizer-lhe todo esbaforido:

– Quer casar comigo?

A mulher, que do tédio passou ao susto, passou então à alegria, e levantando-se, quase puxando consigo a cadeira com as nádegas, pulou sobre o rapaz e o abraçou, esmagando-o contra o peito, antes de encontrar a sua boca e beijá-lo longamente, ao que alguns pares do café aplaudiram, depois do que eles saíram de mãos dadas.

De olhos completamente abertos, fiquei sem entender muito bem a cena.

Deixei meu livro um pouco de lado, afastei o croissant pela metade e a xícara de café vazia, e comecei a tamborilar na mesa de tampo de vidro e armação de ferro, deixando meu corpo cair um pouco da cadeira.

Eu também podia ser solitário e entendiado se quisesse algum resultado…

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sobre cozinhar

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Cozinhar é uma arte solitária; por mais que alguém esteja cercado numa cozinha, por mais que aparente ou efetivamente alguém esteja ajudando, cozinhar é solidão. É prova disso o fato de eu estar agora, às onze horas da noite, esperando um cassoulet ficar pronto. Era o que deveria acompanhar o prato principal, um lagarto na cerveja preta, que já foi engolido com rapidez pela família, cujos membros agora estão acocorados em suas respectivas camas, enfastiados e esquecidos de seu cozinheiro da noite.

Não que eu esteja reclamando… Na verdade, estou: também queria estar acocorado na cama, quieto, pronto para dormir. Estou muito cansado! Minha roupa toda suja de molho, minhas mãos cheirando a cebola e calabresa… Deus me permita não sentir o cheiro do meu próprio cabelo! Estou em petição de miséria, antes de dormir vou ter que me esgueirar até um banheiro para tomar banho. Sozinho. Depois de esperar quase meia-noite para que o cassoulet, que será comido somente por mim, ficasse pronto afinal.

Eu poderia ter desistido. Poderia mesmo. Aliás, tanto poderia ter desistido que todos já davam sinais de que não iam esperar. Dia de ficar acordado até tarde é amanhã, que é virada de ano. Hoje, não. Hoje todos estamos cansados. Inclusive eu, esperando esse bendito cassoulet que ninguém vai comer… Poderia ter desistido, como disse; poderia ter sentado com eles na sala, tomado meu copo de cerveja com mel e mandado esses feijões brancos de volta às favas! Mas preferi não. Porque cozinhar é arte.

É arte, como disse, e é solitária. A respeito da solidão já falei; são ossos do ofício a solidão para o artista. O artista que não é solitário, que não se encontra com a solidão no exercício de seu mister, está sendo enganado por si mesmo. Faz parte da coisa toda estar sozinho, ainda que acompanhado. Então digo que cozinhar é uma arte também, porque exige conhecimento da técnica, mas, principalmente, aquele encontro com a própria alma (daí inclusive o essencial da solidão).

Não, ele ainda não está bom… Tirei um pouco a pressão, olhei lá dentro as bagas de feijão enrugadas, tirei, provei, está duro ainda… Mas está com um gosto bom. É como a maturidade do artista: ainda não, ainda não, ainda não… até que um dia está de bom gosto.

Estou cansado, mas tenho que perseguir. Cozinhar é uma arte solitária. A panela de pressão eu botei de novo no fogo. Abri mais uma cerveja, enquanto escrevo e sorrio para mim mesmo, bobo, ouvindo o pessoal roncar lá mais para o fundo da casa. Não me importo que esteja assim, meio caído.

O cassoulet será meu quando eu terminar. Como uma obra de arte. Uma alquimia, só minha, já perto da meia-noite…

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chuva

desde ontem à noite

chove por aqui

sem nenhuma piedade,

uma chuva fina,

intermitente,

daquela que molha até os ossos

da terra fecunda

e que traz à superfície

aquele cheiro de molhado

tão agradável

ah, o cheiro dos dias de paz!

 

caem as gotas, escorrem, encontram seu repouso,

e continuam caindo,

graciosas,

paz sobre a terra para os homens de boa vontade,

hosana nas alturas!

bendita a que vem em nome do Senhor,

hosana nas alturas!

 

2209331

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abandono

Por que constantemente o segundo lugar? Por que tenho que me conformar em ser alguém para depois e não para agora? Por que tenho que me contentar com o que sobra do seu tempo, com o que resta de você? É o que você pensa constantemente… Não posso dizer, não posso gritar, protestar… Nosso amor é tratado por você com uma tranquila negligência de quem sempre poderá se fazer de vítima. Queria que você se levantasse, amor. Levanta-te! Eu não aguento mais ter que ficar silente, de boca fechada, muda, como se não me importasse… Mas eu me importo! Chegou o tempo de você colocar o seu amor no lugar certo! O que é isso que você tem? Preguiça? Eu não mereço um pouco de luta sua? Eu queria ser o primeiro lugar, não o segundo. Pelo menos a maioria das vezes. Onde está o carinho dos primeiros dias? Onde está a luta para chegar até mim? Quando éramos somente duas pessoas, indivíduos no mundo, quando não éramos um par, conjunto de dois, e eu aparentemente não te queria (secretamente eu sempre te quis), quantas voltas no mundo você não deu, amor, só pra me alcançar alguns minutos… Agora, tudo é motivo para me colocar de lado… Eu não quero estar de lado! O lado é feito de lanças, de escarpas, é difícil ficar sentado aqui de lado enquanto tudo parece bem para você. Mas você não quer ouvir! Quem sabe eu alcance o primeiro lugar com um grito! Mas será o grito que você quererá ouvir, amor? Ou deixará de ser o segundo para ser o último?

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amor divino

Quanto pode um coração sofrer de amor?

Quanto pode, Divino Coração?

Ouvimos de vós que morrestes numa cruz por amor.

Mas e quanto a nós?

O vosso reino venha a nós.

O vosso reino venha a nós.

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paciência

Japoticabeira

Fico à espreita, à espera, como quem não tem pressa de ver a árvore florescer, a flor dar o fruto e o fruto maduro cair do pé. Sói que eu seja paciente antes de tudo, já dizia minha mãe, que sempre soube esperar. É a lição das jabuticabeiras: suas florinhas brancas veem, crescem e, de uma hora para a outra, os frutos verdes surgem, depois enegrecem e ficam disponíveis para serem tomados ou simplesmente deixarem-se ir. Para uma jabuticabeira, tanto faz: seus frutos vieram como deveriam vir. Depois de oito, dez anos de plantada, é que ela dá frutos pela primeira vez; jabuticabeira é uma planta difícil para quem espera! Mas ela mesma espera, e nós temos que esperar também, porque quando os frutos chegam, é como se fosse uma festa do céu na Terra, e todo tipo de coisa é feita dali. Uma vez minha tia, enquanto fazia um licor na pia de sua cozinha, misturando mais aguardente do que devia ao sumo das jabuticabas, começou a chorar, dizendo que quando pensaria que em algum momento da vida fosse ver, ainda viva, aquele pé dar fruto. Mas minha tia já estava velha, de toda maneira. Mas não dá pra deixar de se emocionar com uma árvore tão carregada de frutos, tão paciente como ela só. A gente, que não é paciente, fica paciente só com a paciência dela. E eu mesmo aprendo.

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